Como o discurso extremista e de ódio busca atrair adolescentes nas redes 1g1639
Processo de engajamento é multiplataforma, agravado por uma moderação falha de conteúdos, diz especialista 246r2p

Recentemente, assisti ao filme francês Brincando com fogo, ainda em cartaz, e saí assustada do cinema. A história sobre o envolvimento de um jovem com grupos de extrema direita aborda uma tragédia típica dos nossos tempos: a disseminação de discursos de ódio nas plataformas e o seu impacto em adolescentes e jovens, especialmente os mais vulneráveis, com pais com pouco letramento digital.
Em 2024, um mapeamento do Global Project Against Hate and Extremism (GPAHE, Projeto Global Contra o Ódio e o Extremismo, em tradução livre), uma organização internacional de defesa de direitos humanos, listou 22 grupos extremistas ativos e organizados no Brasil. Boa parte deles, segundo o levantamento, tem perfis nas plataformas sociais e espalha suas narrativas carregadas de ódio na internet.
Hoje, cerca de 24,5 milhões de crianças e adolescentes de 9 a 17 anos são usuários de internet no país (93% dessa população), segundo a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2024, publicada em 2025, pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil. Entre 2015 e 2024, houve um crescimento de 11 pontos percentuais entre aqueles que usavam a internet todos os dias ou quase todos os dias (95% em 2024 e 84% em 2015). Plataformas como YouTube (66%), Instagram (60%) e TikTok (50%) estão entre as mais adas por esse público.
ENGAJAMENTO MULTIPLATAFORMA
Cruzando esses dados, o cenário real é tão ou mais preocupante que o desenhado por filmes e séries. “Não podemos ser reducionistas e dizer que o engajamento ocorre só no Instagram, por exemplo”, diz George Valença, professor associado do Departamento de Computação da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e consultor do Instituto Alana, em entrevista à coluna. Segundo ele, trata-se de um processo multiplataforma. “O nascedouro pode ser na rede social ou num ambiente de jogos e, a partir daí, começam as conversas nos chats ou nos aplicativos de mensagem”, diz.
MODERAÇÃO FALHA
A moderação é, de acordo com ele, frouxa e leva em conta, além dos algoritmos, as regras da comunidade e das plataformas. “Ela é falha e, muitas vezes, enviesada, permitindo que esses conteúdos circulem”, afirma.
Segundo George Valença, o discurso tóxico é, infelizmente, de grande engajamento e produz muitos cliques, curtidas, encaminhamentos e salvamentos. “Por receber muitas curtidas e visualizações, o alcance desse conteúdo aumenta algoritmicamente”, explica.
Para o especialista, há cada vez menos transparência em relação à moderação. Nos últimos anos, vieram à tona denúncias de que celebridades e influencers com milhões de seguidores têm seus discursos mais “protegidos” pelas plataformas. Na prática, segundo ele, falam o que querem, ancorados pelo princípio de “liberdade de expressão”, sem “moderação”, apesar de as políticas das plataformas, seja de redes sociais, de jogos ou de comércio online, proibirem conteúdos que incitem ou promovam violência, seja ela física, psicológica ou de outra natureza.
Além da questão da moderação, crianças e adolescentes estão mais suscetíveis ao que os especialistas chama de “design manipulativo”, que influencia o fluxo de informações. “As telas são projetadas para que eles façam o que a empresa espera”, diz Valença. “De tempos em tempos, as plataformas mudam a posição dos ícones, para favorecer o clique. É um viés cognitivo, de manipulação da maneira como se toma decisão para favorecer um reflexo instintivo”, explica. Segundo ele, há mais de 30 padrões de captura de atenção que compelem crianças, adolescentes e jovens a voltar para a plataforma.
MÚLTIPLAS VULNERABILIDADES
Apesar de a idade mínima para criar um perfil nas plataformas ser de 13 anos, 60% das crianças de 9 a 10 anos possuem perfis em redes sociais, estima o especialista. Crianças de 9 e 10 anos (70%) e de 11 a 12 anos (71%) são usuárias frequentes, principalmente do YouTube, segundo a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2024. “Diferentemente de outros ambientes em que há um processo de classificação etária rigoroso, na internet tanto essa classificação quanto a verificação etária são falhas”, alerta o especialista, que critica também a fragilidade dos controles de privacidade e de proteção de dados.
“Diversas plataformas permitem o envio, inclusive, de fotos”, alerta o especialista. Há, segundo ele, casos recentes em que crianças, assediadas por adultos, enviam imagens delas e viram refém de chantagem e, muitas vezes, de manipulação da própria imagem. “A estrutura das plataformas e as suas funcionalidades não são feitas para proteger crianças e adolescentes”, critica Valença.
O contexto brasileiro, de extrema vulnerabilidade, com cerca de 28,8 milhões de crianças e adolescentes de até 17 anos em situação de pobreza multidimensional, com privação de um ou mais de seus direitos, segundo dados de 2023, do Unicef, agrava ainda mais a situação. “No Brasil, há múltiplas infâncias, adolescências e parentalidades”, destaca George Valença. Segundo ele, mais da metade de crianças e adolescentes (54%) não se preocupa com privacidade ou proteção de dados e não sabe ajustá-las nas plataformas. “Pais, crianças e jovens precisam ser envolvidos nesse processo de letramento digital”, defende.
O especialista – que coordena o ASPAS, um grupo de pesquisadores que reúne e interpreta evidências sobre os riscos trazidos por aplicativos de mídia social, vídeos e jogos digitais – defende uma maior regulação das plataformas, como já acontece na Europa. Por enquanto, projetos nesse sentido têm caminhado lentamente no Congresso, que deveria ter mais pressa em aprová-los, para garantir mais segurança para nossas crianças, adolescentes e jovens nas plataformas.
*Jornalista e diretora da Cross Content Comunicação. Há mais de três décadas escreve sobre temas como educação, direitos da infância e da adolescência, direitos da mulher e terceiro setor. Com mais de uma dezena de prêmios nacionais e internacionais, já publicou diversos livros sobre educação, trabalho infantil, violência contra a mulher e direitos humanos. Siga a colunista no Instagram.