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Premiada quadrinista israelense fala sobre convivência com palestinos em novo trabalho 4y4e6j

Convidada da Bienal de Curitiba, em setembro, Rutu Modan, autora de 'Túneis', conta a VEJA como elaborou o terceiro álbum da carreira 1f5e52

Por Alessandro Giannini Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO Atualizado em 12 Maio 2025, 10h13 - Publicado em 12 Maio 2025, 07h00

Quando a premiada quadrinista israelense Rutu Modan, 59 anos, era uma jovem estudante na Academia de Arte e Design Bezalel, em Jerusalém, nos anos 1990, ouviu de um colega uma história que a marcaria profundamente. O rapaz contou que, na adolescência, ele e seu pai tinham ado anos escavando ilegalmente perto de Jerusalém, em território considerado ocupado. Eles buscavam encontrar evidências da mítica Arca da Aliança — um baú de madeira folheado a ouro que continha as Tábuas da Lei, os tabletes de pedra nos quais Moisés gravara os dez mandamentos ditados por Deus. Após mais de três décadas, a autora de Exit Wounds (inédito no Brasil) e A Propriedade, ambos ganhadores do Eisner, o Oscar dos quadrinhos, resolveu usar esse fiapo narrativo como ponto de partida para o seu terceiro álbum, Túneis, lançado no fim do ano ado pela editora WMF Martins Fontes.

Modan, que estará no Brasil em setembro como convidada da Bienal de Quadrinhos de Curitiba, retomou a narrativa do amigo de escola em 2014, quando começou a pensar em um novo álbum. A ideia da caça ao tesouro, um “arquétipo literário”, a atraiu. Ela ou a refletir sobre a motivação por trás da busca pela Arca, conectando-a com a identidade israelense, o sionismo e a relação entre a religião/história bíblica e um Estado secular. “Identifiquei ali uma história com grande potencial, pois a entendi como intrinsecamente conectada a Israel e ao sionismo”, disse ela em entrevista exclusiva a VEJA. “É fundamental considerar que, embora Israel seja concebido como um país secular — uma solução secular para a questão judaica —, sua fundação se ergue sobre os pilares da Bíblia, das narrativas bíblicas, dos sonhos, das fantasias e do legado histórico.”

Em Túneis, a protagonista é Nili, filha de um renomado arqueólogo da Universidade Hebraica de Jerusalém. Ela retoma a busca de seu pai, agora incapacitado pela ação devastadora do Mal de Alzheimer, pela Arca da Aliança. A trama se desenrola principalmente na Cisjordânia, forçando a protagonista e seus improváveis aliados — seu filho, um rabino ortodoxo, colonos judeus e até o Exército — a cavar um túnel sob o muro de separação, encontrando palestinos do outro lado. A história mistura humor e comédia com temas sérios, usando a “caça ao tesouro” e o próprio túnel como metáforas para explorar a complexa interação entre arqueologia, história, política, identidade e o conflito Israel-Palestina.

Embora não existam provas da existência da Arca, o artefato inspirou livros, filmes e até videogames, como a franquia Indiana Jones, por exemplo. Para Modan, isso não importa, porque a linha entre história e história bíblica é frequentemente indistinta. Ela observa como as narrativas históricas ou bíblicas, mesmo que sua veracidade histórica seja questionável, têm uma influência profunda na identidade e na ideologia, tornando-se impossível “jogá-las fora”. “Não importa se aconteceu ou não”, disse ela, ao ser questionada sobre o caráter fabular do artefato, que em muitas narrativas tem poder sobrenatural. “Porque ainda assim a história é algo muito, muito forte e é parte de nós.”

TÚNEIS, de Rutu Modan; Editora: WMF Martin Fontes; Tradução: Lígia Azevedo; Páginas: 286; Livro: 139,90; E-book: 139,90
TÚNEIS, de Rutu Modan; Editora: WMF Martin Fontes; Tradução: Lígia Azevedo; Páginas: 286; Livro: 139,90; E-book: 139,90 (Editora Martins Fontes/Divulgação)
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Apesar do tom crítico e satírico de Túneis, que não poupa ninguém, nem árabes, nem israelenses, a autora se surpreendeu com a ausência de repercussão negativa, especialmente por parte dos setores religiosos. Ela atribui essa recepção ao caráter “bem-humorado” da história e à genuína afeição que nutre por todas os seus personagens. “Acho que as pessoas representadas apreciaram o livro, entenderam as críticas e as aceitaram talvez porque era uma proposta realmente bem-intencionada”, disse ela. Embora a artista considere essa a sua obra mais importante, seu desempenho comercial ficou aquém de seus trabalhos anteriores, levando-a a cogitar que o grande público possa ter encontrado maior dificuldade em lidar com os temas propostos.

Ataques de 2023 15q25

Após os ataques de 7 de outubro de 2023, Modan chegou a pensar que seu álbum era “lixo” e “ingênuo”, pois a violência na região a fez questionar sua visão otimista de cooperação. Ela diz ter ficado tão abalada que não conseguia nem olhar para o próprio trabalho. “Eu estava cega e não percebia o que estava acontecendo”, pensou, na época. No entanto, com o tempo, sua perspectiva mudou, e ela ou a ver a obra como uma “sugestão” ou “solução” para a situação, enfatizando a importância da cooperação apesar da desconfiança. A artista acha que o livro sugere que “é possível superar” as dificuldades por meio da união. Com os eventos recentes, sua crença na disposição de certos grupos em priorizar a vida humana voltou a ficar abalada, e ela expressou dúvidas sobre a representação de seus personagens. “Já não tenho mais certeza se eles escolheriam uma opção humanitária  em vez da terra”, argumentou. “E isso é muito triste”.

Página de 'Túneis': o momento em que os grupos israelense e palestino se encontram na escavação ilegal -
Página de ‘Túneis’: o momento em que os grupos israelense e palestino se encontram na escavação ilegal – (Editora Martins Fontes/Reprodução)
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Após Túneis, Modan tirou uma pausa criativa. Os eventos de outubro de 2023 a afetaram profundamente, tornando-a incapaz de trabalhar por um tempo. Ela começou a escrever um diário duas semanas após o ataque e decidiu basear seu próximo livro nele, abordando a guerra. Inicialmente, se sentiu satisfeita com seu trabalho, apesar da dificuldade de escrever sobre si mesma sem se sentir uma vítima, defensiva ou agressiva. “Embora eu nunca tenha feito obras autobiográficas ou diretamente políticas, queria contar essa história”, disse ela. “Quando mostrei o projeto para meu tradutor do inglês e para meu agente, ambos americanos, eles me disseram para desistir. Alegaram que ninguém se interessaria pela complexidade da situação, que ninguém quer ouvir sobre Israel ou o que os israelenses estão sentindo, e que o livro não seria publicado.”

Além de acompanhar o lançamento no cinema da adaptação de O Apartamento, Modan publicou um conto de ficção científica que escreveu recentemente. A história é sobre um mundo onde as pessoas têm opiniões, mas não as expressam publicamente porque entenderam, na era das redes sociais, que podem ser perigosas. Nesse mundo, tudo é personalizado para evitar conflitos, incluindo os livros que as pessoas leem. “É uma história de ficção científica que explora a prevenção extrema de conflitos”, disse ela. A ver se a imaginação da artista  se torna presságio.

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